quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sobre "Viajo porque preciso, volto porque te amo"


Só para constar. Como já deve-se ter percebido, não tenho, ainda, preocupação em escrever somente sobre filmes que estão estreando, escrevo sobre filmes que vejo, que não necessariamente acabaram de entrar em cartaz, ou ainda que não ficarão em cartaz por muito tempo ou até sobre alguns que já saíram de cartaz (ainda não o fiz, mas está nos projetos). Enfim, vocês entenderam.
Desta forma, não sem algum pesar, falarei só hoje de “Viajo porque preciso, volto porque te amo”. O pesar não é porque eu não tenha gostado do filme e escrever sobre ele seja chato, em absoluto, mas sim porque me parece ser um filme que já deve estar saindo de cartaz, e teria sido legal ter divulgado minhas impressões sobre ele antes, para que mais pessoas pudessem ter tempo de conferí-lo.
O filme narra a história de um geólogo (o Google me diz que o nome dele é José Renato, mas não lembro de em algum momento isso ser dito no filme) recém separado de sua mulher, que viaja pelo interior do nordeste para estudos e medições do impacto da transposição de águas de um rio nas comunidades da região.
A identificação do universo interior com o exterior é imediata. Tanto quanto pela paisagem árida, quase desértica, quanto pelo contexto. Logo nos primeiros minutos do filme o geólogo mostra um casal, daqueles muito humildes, que há cinqüenta anos mora na mesma casa, dorme na mesma cama, e que vai ser desalojado para que a região possa submergir. Por alguns minutos o homem sai da frente da câmera e o geólogo diz que pediu que ele voltasse por que não parecia certo aquela mulher aparecer sozinha. Pode ser que eu esteja enganado quanto às palavras, mas idéia era esta. Foi a parte que mais me comoveu.
E assim, vamos acompanhando o geólogo por sua viagem, suas anotações técnicas e suas divagações emocionais. Ele é geólogo, ela botânica. Ele sente amores e ódios repentinos por ela e fez aquela viagem para tentar esquecer o pé na bunda que ela lhe deu. Só que, em toda aquela solidão, ele só faz lembrar. “Viajo porque preciso, volto porque te amo” foi uma frase que ele viu na porta de um dos banheiros por onde passou e que ele tinha vontade de dizer pra ela. Mais tarde, ele subverte um pouco e diz “viajo porque preciso e não volto porque te amo”.
Em momento algum o geólogo aparece. O tempo todo ele nos narra, em off, as suas desventuras amorosas entrecortadas por relatórios técnicos dos aspectos geológicos das regiões por onde passou (numa possível metáfora do seu estado emocional). As imagens são algo entre uma câmera subjetiva (aquela em que a câmera faz as vezes do próprio personagem) e um registro de viagem. Um tanto menos disso e um tanto mais daquilo. Ou vice-versa. Ainda há as fotografias, remetendo tanto ao mero registro, como à monotonia da vida naquelas regiões. O resultado é uma bela poesia visual que me pareceu ter a pretensão de ser tão involuntária e desproposital quanto a beleza daquelas paragens inóspitas.
Com essa combinação, cria-se uma mágica e sólida proximidade com o personagem. Estamos vendo o que ele vê, ouvindo seus pensamentos e sentindo o que ele sente e, muitas vezes, ao som da música brega das rádios que ele ouve. E é bem verdade que se por um lado, seu gosto musical revela um traço da classe social a qual ele pertence, por outro, funciona como uma bela (isso mesmo) trilha sonora para a baita dor-de-cotovelo que ele está sentindo. Destaque para a versão de “Último desejo”, de Noel Rosa. Muito sensível e belamente cantada por um sapateiro da beira da estrada e depois recitada pelo personagem, remoendo suas dores.
Aliás, o ator Irandhir Santos (o geólogo, não o sapateiro) faz um belo trabalho de voz. Esta é a única referência que temos do personagem, a sua voz. Quem já teve a experiência de buscar entonações variadas e verossímeis a textos escritos sabe a dificuldade que é. Com um irresistível sotaque nordestino, que suponho ser-lhe de nascença (não sei de sua naturalidade) e fazendo uso aqui e ali daquele rico vocabulário (que, ok, devia estar no roteiro, mas uma coisa é estar escrito, outra é dizer como se fosse usual) Irandhir nos faz entender todos os momentos pelo qual o personagem passa.
O filme ainda flerta com um formato documental ao mostrar as pessoas que cruzaram o caminho do personagem, como o referido sapateiro e algumas prostitutas, sendo que uma delas chega a ser entrevistada por ele. E isto não quebra a diegese do filme, uma vez que parece servir os estudos do personagem e é tudo mostrado num tom misto de humor e melancolia, carregado com o subjetivismo do mesmo.
Resumidamente, “Viajo porque preciso e volto porque te amo” é uma espécie de road movie só que com uma alta carga de introspecção contemplativa. Um check-list sentimental do personagem com seu inconformismo com o fim de um relacionamento, proporcionado pela solidão de uma viagem idealizada para o propósito contrário para o qual serviu. “Um calmante que não resolveu a dor, mas tranqüilizou o juízo”, como ele mesmo diz.

domingo, 18 de julho de 2010

contra plongée

Uma das grandes descobertas da vida é a de que obrigação não é coisa que deve vir separada de diversão. Se a obrigação, em si, não é necessariamente divertida, é importante ter um tempinho extra e se dedicar à diversão. Para respirar. Para cuidar do espírito e ter disposição para seguir adiante nas obrigações.
É bom dar um tempinho nos estudos e curtir um cineminha. Seja um blockbuster com explosão, seja um cult hermético esloveno. Quando as coisas estão preto-e-brancas demais aqui fora, é bom correr para dentro de uma sala escura onde tenha uma tela brilhante. E entrar nela.
Abaixo, pílulas sabor cinema de filmes do futuro, em ordem de minhas expectativas, a quem interessar possa:


SOMEWHERE (Sophia Coppola, previsão de estréia 22/12/2010 nos EUA)
Delícia, não? Fui correndo pesquisar qual era a trilha sonora. “I´ll try anything once” , dos Strokes. A câmera contemplativa e o tom intimista talvez remetam um pouco a "Encontros e desencontros”, mas eu não vejo isso necessariamente como um problema. Sophia Coppola definitivamente está no panteão dos cineastas que me deixam ansioso por seus próximos lançamentos. Comigo, ela tem créditos a favor justamente por causa de “Encontros e desencontros” e também por “Maria Antonieta”- por “Virgens Suicidas” nem tanto. Este está no rol dos que precisam ser revistos devido às condições adversas na primeira experiência (peguei já começado e na TV a cabo).
Infelizmente, somewhere ainda não tem previsão de estréia no Brasil.


TROPA DE ELITE 2 (José Padilha, previsão de estréia: 08/10/2010)
É inegável o quanto Capitão Nascimento conseguiu se tornar um grande personagem do nosso imaginário popular. Até hoje as pessoas falam em “pede para sair”, “zero dois”, “zero meia”, “aspira”, não sem um certo tom jocoso, como uma referência ao autoritarismo e arrogância do Capitão do BOPE imortalizado por Wagner Moura, levado às telas em 2007. O primeiro foi um filme intrigante. Não foi óbvio ao mostrar um inquietante panorama deste mosaico complexo que é a questão da segurança pública na cidade do Rio de Janeiro. Foi taxado de fascista e, em uma análise apressada e tendenciosa, pode sim, passar esta impressão, mas com um pouco de inteligência e boa vontade vê-se uma madura e ousada obra do diretor do nada fascista “Ônibus 174”.
Este segundo, para dizer o mínimo: promete.
Diz aí: quem não arrepiou a nuca ao ouvir o Capitão com seu tom sempre marrento falando da sua experiência no BOPE e aparecendo grisalho e sendo pego em uma emboscada?


THE SOCIAL NETWORK (David Fincher, previsão de estréia: 03/12/2010)
Fui tomar conhecimento desta produção justamente por causa deste trailer recém lançado. Sua trilha sonora, uma versão arrasa-quarteirão de “Creep”, clássico do Radiohead, cantada por um coro infantil (ao menos assim me soa), além de simplesmente me arrasar – no ótimo sentido - é realmente ideal como uma clara referência tanto à juventude dos inventores do Facebook, de cujas histórias o filme pretende se ocupar, quanto à eventual carência da nossa geração de usuários de redes sociais sempre tão ansiosos de se mostrarem felizes e populares quando, muitas vezes não o são, uma vez que a música fala em se sentir esquisito e inadequado.
Traz no elenco Jesse Eisenberg, o sósia do Michael Cera, e Andrew Garfield, o mais novo Homem-Aranha. A direção é do David Fincher ( de “Seven”, “Clube da Luta”, “Curioso Caso de Benjamin Button” - só para citar meus favoritos).


NOSSO LAR (Wagner de Assis, previsão de estréia: 03/09/2010)
Não, não é uma sequência de ‘Star Wars’. Sim, é um filme brasileiro. “Nosso lar” é uma das obras literárias mais conhecidas da psicografia de Chico Xavier, foi psicografada pelo médium na década de 40 e narra a história do próprio espírito autor, o Dr. André Luiz, que, quando morre depara-se com toda uma realidade para ele, até então bastante improvável de vida no além. Para se ter uma idéia “Nosso lar” é o nome da cidade espiritual para onde Dr. André Luiz vai após a morte. Não sem antes passar por uma região assustadora chamada de umbral.
O visual do trailer é surpreendente. Não há nada parecido em nossa produção cinematográfica em termos de efeitos especiais, o que, acreditem, serve à história. Espero muito, como espírita admirador desta obra e como cinéfilo, que este filme atenda às minhas expectativas de não ser um clichê lacrimogêneo com parafernalhas high tech, mas que realmente conte a história de um homem que descobre um novo paradigma de vida. A trilha sonora é do Phillip Glass. Mais um motivo para a alta expectativa.


A ORIGEM (Christopher Nolan, previsão de estréia: 06/08/2010)
Christopher Nolan lidera, no momento, as bilheterias norte-americanas com este “Inception”. “Memento”, “Insônia”, “Batman Begins”, “O grande truque” e “O Cavaleiro das Trevas” são motivos mais do que suficientes para ele me levar ávido ao cinema para conferir este seu mais novo trabalho. Segundo o imdb, eu só não citei três da sua filmografia de oito filmes até o momento. E eu só não o fiz por que eu ainda não vi estes três. Logo, se tudo o que eu vi dele até agora, eu gostei, as chances de eu não gostar deste são mínimas. Dá para ver que o visual deste filme, pelo menos até agora, é impecável, que o elenco é de primeira e que a história é bem interessante. Pelo que li, DiCaprio interpreta um ladrão com habilidade de penetrar no inconsciente de suas vítimas enquanto elas dormem e isto terá implicações na espionagem internacional. Mal posso esperar. Ainda bem que será o primeiro do grupo a estrear.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Sobre "O pequeno Nicolau"


Li, creio que na crítica d´O Globo sobre o filme, que quando os direitos da história em quadrinhos “O pequeno Nicolau” foram adquiridos pelo diretor, Laurent Tirard, a única condição imposta pelos familiares de René Goscinny (escritor) e Jean-Jacques Sempé (ilustrador) foi a de que fosse feita uma obra-prima. Pelo jeito, Tirard levou a condição bastante a sério.
As aventuras de Nicolas (ou Nicolau, como preferir o freguês), um menino de imaginação fértil o suficiente para acreditar que será abandonado por sua família pelo simples fato de supor que sua mãe está grávida e que decide fazer de tudo para fazê-la mudar de idéia (inclusive se meter nas mais deliciosas confusões), certamente são diversão garantida para todos os públicos uma vez que o filme é uma óbvia homenagem a uma das fases mais mágicas da vida, a infância.
Seja nos sentimentos de nostalgia que provocam nos adultos, seja na forma lúdica e ingênua que provavelmente entretém a criançada de hoje, tão encharcada de internet, videogames e filmes 3D (a história se passa na década de 50), o filme consegue divertir e emocionar de maneira inteligente e leve, sendo daqueles que nos faz sair do cinema com um sorriso na boca e uma lagriminha discreta no canto do olho, satisfeitos com a experiência.
Sempre ensolarado, o filme também abusa das cores numa referência clara aos quadrinhos e desenhos animados. Os enquadramentos, muitas vezes, fixam-se somente na parte inferior dos corpos dos adultos, atendo-se ao “mundo” infantil; A trilha sonora é utilizada sem pudores seja para dar um tom cômico e ágil às cenas de ação ou para brincar com outros universos diegéticos, como na cena que envolve uma busca a um gângster; Algumas cenas de natureza meramente ilustrativas da imaginação infantil tomam forma em sequências impagáveis como a envolvendo o nome de um Rio e um dos personagens em um teste ergométrico. Isto sem mencionar a feliz homenagem a Goscinny, também criador dos lendários Asterix e Obelix, numa sequência em que os pequeninos se inspiram em estratégias dos mesmos para uma de suas aventuras.
É um filme mais focado no universo masculino, mas passa longe do “humor de banheiro” (embora muitas cenas do exame médico sejam impagáveis, mas não por causa deste tipo de humor). Até porque o personagem deve ter entre 6 e 8 anos, faixa etária que a molecada está mais interessada em aprontar e enlouquecer os adultos do que com qualquer outra coisa.
Pessoalmente, considero este um filme marcante porque tenho um imenso carinho pela minha infância e muitas vezes consegui me ver naquele Pequeno Nicolau com sua família imperfeita, mas feliz, seu grupinho de amigos nem sempre corretos e sua meiga professora. Saí do cinema refletindo sobre o quanto também ter tido isso tudo foi tão importante para mim.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Pertencer-se

*Retirado do livro "Jesus e vida", do espírito Joanna de Ângelis, pelo médium Divaldo Pereira Franco.

Graças aos atavismos ancestrais que se demoram em a criatura humana, inúmeras dependências caracterizam-lhe a existência, na condição de conflitos e de falsas necessidades de apoio.
A identidade conturbada, não conseguindo libertar-se dos liames a que se encontra atada por indolência e comodidade, permite-se continuar sob o jugo das paixões a que se submete espontaneamente.
Cada espírito é possuidor do corpo de que se utiliza, elaborado de acordo com suas necessidades evolutivas, programado para o processo de crescimento interior, atravessando as diversas etapas existenciais conforme as próprias aspirações.
Essa dependência debilita-lhe os centros processadores de qualificação para a vida, em face da indiferença a que se aclimata, supondo não possuir forças nem valor moral para a libertação do problema. No recesso do ser, esse fenômeno é fruto do autodesamor, da incapacidade de lutar para crescer e motivar-se para desenvolver os recursos elevados que se encontram adormecidos em germe, no cerne de si mesmo.
Nem sempre, porém, dá-se conta de sua dependência afetiva, emocional, cultural, financeira, social, espiritual...
Por conseqüência, a faculdade de pensar cede lugar aos impositivos dessa aceitação, deixando-se arrastar pelas idéias e atividades de outrem, que nem sempre são corretas e edificantes, negando-se o direito de ser livre, de assumir responsabilidades.
Em face dessa condição, quando se compromete, naturalmente tem para quem transferir a culpa, isentando-se da responsabilidade de ser feliz conforme os próprios padrões...
Nesse processo, surgem os tormentos que são resultados da insatisfação, do drama decorrente da conduta infantil ou doentia, por faltar uma escala de valores que justifiquem as lutas dignificadoras e os enfrentamentos, mas que são indispensáveis à conquista da plenitude.
Enxergando a vida conforme as lentes de outrem, a capacidade de eleger o que lhe é de melhor, aquilo que proporciona felicidade, lentamente se restringe, perdendo a diretriz que deveria seguir.
A finalidade essencial da reencarnação, porém, é do crescimento intelecto-moral do espírito, em cuja conquista impõe-se o dever de ser-se livre, de identificar-se os próprios limites, mas também as incalculáveis possibilidades que lhe estão à disposição.
Ao mesmo tempo em que liberta das dependências perturbadoras, aprende a vincular-se às outras vidas, de caminhar ao lado, permutando experiências e ampliando horizontes, de forma que encontre sentido viver em sociedade, relacionando-se com tudo quanto existe.
Embora vivendo um período de pensamento mágico, no qual tudo se resolve de maneira tecnológica, imediata, fácil, bastando apenas apertar um botão ou um teclado e encontrando as respostas já elaboradas, os processos de solução prontos para serem usados, é indispensável reflexionar, medir os riscos e os sucessos, assumindo a própria identidade e a responsabilidade por cada ação...
Todavia, no que diz respeito ao trabalho de libertação, na busca do pertencer-se, caminhando com a responsabilidade dos próprios atos, sem medos nem tormentos, são indispensáveis um grande esforço, uma disposição contínua para não desistir nem desanimar, rejubilando-se, a cada passo, crescendo intimamente a cada tentativa.
Sem esse esforço pessoal, inadiável, o indivíduo prossegue na jornada em dependências que variam de circunstância, pessoa, emoção...
***
Indubitavelmente, os espíritos comunicam-se com os viandantes do carreiro carnal, interferindo nos seus pensamentos, palavras e atos. Como resultado, há um intercâmbio incessante entre as duas vibrações que envolvem os encarnados e os desencarnados, sendo natural que, de acordo com os padrões de conduta decorrentes do cultivo de idéias, da vida interior, haja a vinculação por afinidade.
Como pululam em volta do planeta os espíritos infelizes, em razão do seu estágio evolutivo, mais facilmente ocorre vinculação com os mesmos, isto quando o fenômeno não tem procedência em existência anterior, em decorrência do comportamento havido entre ambos, no caso, dando lugar aos processos obsessivos.
Dessa forma, a dependência do encarnado caracteriza-se pela submissão à influência morbosa do seu comparsa espiritual.
Inabituado a assumir decisões dignificadoras, deixa-se arrastar pelas idéias pessimistas e perturbadoras que lhe são transmitidas, passando à condição de vítima de uma parasitose infeliz, que termina por roubar-lhe as energias, trabalhando pelo seu deperecimento, desequilíbrio total e desencarnação antecipada...
O inconsciente, reconhecendo a culpa em decorrência da ação anterior infeliz, deixa-se dominar pelo agente perturbador, facultando-se a dependência, que o paciente aceita sem murmuração...
Iniciando-se o processo espiritual libertador, o espírito viciado na aceitação da circunstância danosa, não se permite o esforço de recuperar o equilíbrio, a sanidade mental ou emocional, ou mesmo física, prosseguindo espontaneamente a carregar a cruz que lhe pesa na consciência.
Aceitando a condição de vítima, não se esforça pela reconquista da identidade própria, deixando de pertencer-se, de avançar no rumo da alegria e do bem-estar que a todos se encontram destinados, fugindo para a autocompaixão, a autocomiseração.
O corpo pertence ao espírito que nele se encontra renascido, para as excelentes realizações evolutivas e nunca aos invasores da sua consciência...
Cada indivíduo deve esforçar-se ao máximo para preservar a sua independência interior, laborando em favor da autoconfiança, do auto-esforço, trabalhando a auto-iluminação.
Ninguém pode realizar este mister, exceto o próprio espírito, porquanto somente o seu cabedal de experiências facultar-lhe-á desenvolver-se intelecto-moralmente, em cada etapa, tornando-se melhor do que na anterior.
Desse modo, ninguém renasce, no mundo físico, para sofrer, senão para reeducar-se, para recuperar-se dos delitos infelizes, para crescer na direção de Deus.
Nunca, pois, justificáveis as expressões: “não posso”, “não consigo”, “não tenho forças”, todas decorrentes da indolência mental e da acomodação pessoal, não obstante os danos de que sejam portadores.
***
Recupera-te dos efeitos perniciosos da tua atual ou anterior existência, trabalhando as tuas forças morais, confiando em Deus e a Ele entregando-te sem reservas, lutando com tenacidade a fim de venceres as tendências inferiores que teimam em jugular-te ao eito das dependências negativas.
Ergue-te ao amor e o amor te conduzirá pela senda libertadora, autopertencendo-te e conquistando o espaço que te será reservado no processo da evolução.

domingo, 27 de junho de 2010

Beatriz sincera

Beatriz,
por favor, olha pra mim
e, pelo menos uma vez,

minta.

Como se não houvesse verdade,
conte-me uma mentira
sobre o que eu quero ouvir

e sobre o que você não quer falar.

Apenas minta.

Se todo mundo mente,
Beatriz,
por que só você
tem que ser
sincera?

Diga que me ama.
Diga que me odeia.
Diga o contrário.
Diga qualquer coisa,

mas minta.

Sem pudor
e sem receio,
nua de verdade.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sobre "Quando eu fiz 27 anos"

A idéia de um reality movie jamais foi tão ousada quanto a que se vê neste projeto. Conceitualmente, o filme é mais ou menos uma mistura de “O Show de Truman” com o seriado de TV “24 horas”, uma vez que acompanha em tempo real, só que com câmera subjetiva, a vida de Gabriel, um jovem brasileiro de classe média tentando encontrar uma maneira de ser feliz a cada dia.
O grande trunfo do filme está justamente na sua capacidade de nos fazer refletir sobre a beleza da simplicidade do dia-a-dia e o quanto se pode aprender diariamente sobre as mais diversas questões, desde as mais corriqueiras às mais profundas, bastando ter apenas um pouco de boa vontade e estar mais atento ao que a vida oferece. Lendo assim, até parece clichê, mas é certo que este é só um apanhado geral. Cinematograficamente é uma experiência muito mais intensa e rica do que o que aí foi, completamente distante de qualquer clichê.
É com imensa ternura que acompanhamos a sua infância mágica, sempre ensolarada e recheada de brincadeiras. Outro não é o sentimento quanto à sua vivência familiar. Dá para sentir quase fisicamente o carinho e o amor que unem todas aquelas pessoas. Apesar de todos os problemas, a impressão que dá é a de que há um acordo tácito de total cumplicidade entre eles. Mesmo que lhes custe os mais caros apegos e que haja brigas e mágoas, parece que, no fundo, eles sabem que acabarão se perdoando mutuamente e que o que veio antes, fez parte do processo de aprofundar estes laços tão fortes.
Entretanto, como nem tudo é um mar de rosas, não é tão difícil se identificar com a comédia de erros que é sua vida amorosa e com suas incertezas quanto a sua vida profissional (o personagem engrossa as estatísticas dos milhares de brasileiros que estudam para serem aprovados em um concurso público). E é aí que se torna evidente a humanidade do personagem principal. Nem sempre ele está apto a perceber e aproveitar as diversas oportunidades de aprendizado e acaba repetindo inúmeras vezes o mesmo erro, como qualquer um pode fazer.
Por outro lado, Gabriel conta com amigos tão fundamentais em sua vida que os mesmos foram responsáveis por ajudar a transformar uma faculdade de direito em algo interessante, os carnavais longe da folia em uma catarse espiritual e os momentos difíceis em abraços que o apoiaram quando tudo parecia que ia cair.
Os únicos problemas são que o filme é um tanto longo (já são 27 anos de projeção, sem previsão de fim até o momento) e, por vezes monótono (não só nos momentos em que Gabriel estuda, assiste aula ou dorme – acreditem!), mas, sem dúvida, o maior de todos é que o filme só pode ser exibido para somente um espectador, sendo certo que é absolutamente apaixonante justamente no que apresenta de revolucionário neste quesito. Contando com uma altamente secreta porém ancestral tecnologia, o filme permite um conceito de interatividade jamais visto no cinema, dando poder a este único espectador de intervir em todas as tramas e mudar completamente os rumos de sua história, se quiser.

domingo, 20 de junho de 2010

Sobre "Tudo pode dar certo"


Não lembro exatamente onde li (suspeito que seja no bom e velho “Cinema em Cena”) que Woody Allen, indubitavelmente um dos cineastas mais prolíficos da nossa época, normalmente produz um filme em cada estação do ano, e que, quando o projeto ainda não tem um nome definido, é chamado de “Projeto de verão do Woody Allen” ou “Projeto de primavera do Woody Allen”. Seja esta uma informação verdadeira ou pura invencionice da minha mente desvairada, fato é que a extensão de sua filmografia é algo invejável. É óbvio que nem sempre o resultado é exatamente uma obra prima (vide “Scoop” que considero ruim e “A maldição do escorpião de Jade” que eu só vejo valor na presença da Helen Hunt – sério!), mas digo sem medo de ser feliz que, para o meu gosto, e para os filmes que já vi dele, normalmente gosto de seus trabalhos e vejo qualidades neles.
Certamente por conta desta sua alta performance (ops!) cinematográfica, o cineasta revela tamanho traquejo ao narrar uma história no cinema que a impressão que dá é a de que, alguma vezes, a máquina está azeitada até demais. Desde detalhes bobos como a utilização das mesmas fontes nos créditos iniciais até uma saída do armário nada sutil de um determinado personagem, podem revelar, vá lá, uma certa preguiça, mas não chegam, obviamente, a atrapalhar o resultado final.
Basicamente fundado no roteiro, sem grandes requintes em termos de forma, mas divertido e inteligente em conteúdo, “Tudo pode dar certo”, flerta descaradamente com a informalidade de um papo de botequim. Logo no início, após o personagem principal expor com impaciência sua visão sobre política e religião, justamente em um papo de botequim, ele levanta, olha para a câmera e dialoga com o espectador sem o menor pudor – para terror dos demais personagens e de um menino que anda na calçada com sua mãe (“Look, ma! This guy is talking to nobody!”). E este é o tom do filme. Um tanto apressado, um tanto histérico e um tanto irônico, mas bastante informal.
“Tudo pode dar certo” é um filme que tem no acaso o seu protagonista e apresenta a visão de um físico pessimista e com tendência suicida sobre o acaso, o amor, Deus e a morte. Não precisa muito esforço para entender que Boris Yellnikoff, interpretado com carisma e histeria por Larry David, é o alter ego da vez de Woody Allen. Sempre resmungando ou com uma tirada pessimista sobre a vida, o sujeito consegue inspirar, ao mesmo tempo, repulsa, compaixão, empatia e piedade sempre que aparece com seu sarcasmo afiado vestindo seu robe andrajoso com camisa e samba-canção. É absolutamente engraçado e desprezível, ao mesmo tempo, o hábito que ele tem de lavar as mãos cantando parabéns para você, pois o tempo da música é o suficiente para matar todos os germes.
Depois de uma desilusão amorosa, Boris conhece Melody St. Ann Celestine (Evan Rachel Wood, quase uma Linda Ash, personagem de Mira Sorvino em “Poderosa Afrodite”) uma jovem vinda do Mississipi que ele encontra na rua e resolve dar abrigo quase que contra a sua vontade. Melody, obviamente, é o oposto de Boris. Jovem, bem humorada e excessivamente tola. Em um momento do filme, Boris afirma que “a vida não é teoria” e, em outro, que casamento é só uma “ilusão sem sentido para aplacar o pânico”, mas obviamente que ele acaba caindo na própria armadilha, teorizando sobre a vida várias vezes e casando-se (e isso não é spoiler).
A crítica aos costumes da América Profunda e a rigidez de sua visão de mundo excessivamente republicana e religiosa beira o clichê, mas não deixa de ser compreensível dada a evidente abordagem simbólica de todo o filme.
No final, fiquei com a impressão de que Boris não é exatamente um pessimista. Sua visão de que o acaso comanda e que, no fim, tudo pode dar certo, até as situações mais improváveis, revela não um pessimismo com a vida, mas a nossa perene imaturidade para lidar com as expectativas.