sábado, 16 de abril de 2011

It's the Bahamas!

Para mim, escrever é uma das tarefas mais prazerosas que exerço. Gosto das palavras, gosto dos sentimentos, mas de vez em quando isso tudo me causa certo enfado. E aí, fico tentando entender se devo me preocupar com a minha sanidade mental ou esperar a inspiração vir até o momento em que simplesmente resolvo, esparramado na cama com o note no colo (ouvindo Mozart, no headphone, bem se diga), acabar com as dúvidas e começar a rascunhar uma coisa ou outra.
Pois bem, neste meio tempo tive uma meia dúzia de idéias interessantes para desenvolver aqui, mas não o fiz porque me impus a condição de só voltar a escrever alguma coisa depois de dar seguimento ao diário de viagens do penúltimo post.
Depois da última quinta feira narrada aqui, na sexta, dia 18 de março, embarcamos para Nassau, capital do complexo de 700 ilhas (segundo meu primo. A Wikipédia fala em 31 distritos), que é as Bahamas. As Bahamas são quase um pedaço da África na América Central onde se fala um inglês quase britânico e a mão do trânsito é inglesa. É claro que isso é fruto do processo de colonização, contexto do qual o complexo de ilhas se viu independente somente em 1973, e também do tráfico negreiro, que quando extinto, não motivou nenhuma boa alma a levar os negros de volta a seu continente de origem – as Bahamas eram um importante centro de triagem dos negros que seriam vendidos para as Américas. Quanto aos nativos originais, os índios arawakes, como a maioria pré-colombiana, foram devidamente dizimados. Atualmente os principais atrativos das Bahamas são, como se sabe, as praias paradisíacas e os mega complexos hoteleiros que atraem um quantitativo de turistas/ano maior que o Brasil.
A viagem para Bahamas foi um desafio a parte. Não era uma simples viagem a passeio, era também um pouco de mudança de alguns familiares meus, dos EUA para Nassau. Eram 14 malas. 10 para despachar (sendo 3 delas de proporções gigantescas). 2 para o baggage storage, 2 para levar na mão, 2 crianças (sendo um bebê de um mês de vida e uma menininha de três anos ansiosa por correr para explorar espaços), 2 carrinhos de criança, 2 vovôs e um aeroporto gigantesco para percorrer. A caminho do nosso portão, no skytrain que dava acesso ao mesmo, a esposa do meu primo olha pra mim e diz num misto de susto e divertimento: 'Que aventura!'. De fato, uma aventura. O avião era pouco mais que um ônibus que voa. Duas poltronas para um lado, duas para o outro. Hélices. Estava cheio, muita gente aproveitando o chamado spring break (uma espécie de micro férias para aproveitar a primavera após um longo e tenebroso inverno), mas eram só 45 minutos de vôo até Nassau. Sentei no corredor, mas deu para bisbilhotar um pouco pela janela a espetacular boas vindas do mar com sua película de gelatina verde sobre imensos areais e corais e o sol resplandecendo tudo.
A estadia em Bahamas não poderia ser melhor. Uma coisa boa de se ter uma casa para ficar é poder se sentir em casa. Foi mais uma viagem de descanso, do que propriamente de turismo (não que isso tenha deixado a desejar, muito pelo contrário, creio que conhecemos o melhor de Bahamas), o que de uma certa forma foi ideal para os meus avós. Acordar todo dia de manhã e dar de cara com um mar azul turquesa é praticamente um imperativo categórico contra qualquer desânimo ou tristeza. Respirar uma lufada daquela brisa marinha, sentir aquele sol da manhã na pele são uma experiência espiritual.
Fomos a excelentes restaurantes, destaque para o Café Matisse, onde comemoramos o aniversário de 90 anos do meu avô (um dos dias mais agradáveis que passamos lá, que serviu como uma celebração suave, mas profunda desta data tão importante). Fomos na Goodfellows Farm, uma fazendinha onde o restaurante serve os produtos orgânicos lá produzidos e a comida é simplesmente deliciosa. Fomos a um zoológico de aves, onde tem um show de flamingos e se pode entrar na jaula nas maritacas para alimentá-las e ser faceiramente atacado por elas.
Fomos a um clube onde, salvo engano, foram filmadas algumas cenas de um dos filmes recentes do 007 (e que tocava Beatles e Coldplay no banheiro, juro), fomos ao monumental Atlantis, o maior resort da região (enquanto os chineses ainda não construíram o seu rival, um investimento de reles 2 bilhões de dólares) com seu cassino, seu aquário gigantesco e sua marina que abriga os iates mais cinematográficos que já vi pessoalmente. E praticamente todo dia eu me dava o direito de mergulhar naquelas águas transparentes para dar um alô pros peixes e estrelas do mar que estavam sempre ali por perto.
Enfim, foi uma viagem inesquecível não só pelos lugares incríveis visitados, mas sobretudo por estar em companhia das pessoas que mais amo, minha família.

Alguns protestaram da falta de fotos do último post. Então, segue uma minha (meio playsson, eu sei) no tal clube Albanys:

domingo, 20 de março de 2011

Miami Portraits

Já disse em um outro post que este blog tinha um quê de querido diário, mas nunca explorei essa faceta efetivamente, o que passo a fazer agora. O que segue abaixo é um relato burocrático-emocional desta viagem de boas vindas a Felipe e de celebração aos 90 anos de vida de meu avô.

A quem interessar possa:

Sexta 11-03-2011

Vôo da madrugada com poltronas apertadas e aeromoças de mocidade duvidosa. 'Megamente' no televisor como uma pequena piada comigo. Consegui dormir sentado quase que apelando para estratégias de meditação transcendental. Pousamos 5:35, hora local. O cara da alfândega se espantou com o fato de eu ser advogado. Entramos no aeroporto de noite, saímos no primeiro sol da manhã, o que deixa tudo ainda mais onírico. Tentativas frustradas de ligar para casa pelo número da Embratel. Não por falha no serviço (que é um achado), mas por que o toque não foi ouvido. Liguei para a irmã em São Paulo. A família de cá nos recebeu calorosamente, o pequenino todo se mexendo e emitindo vários sonzinhos (o que me deixou com mais saudade do sobrinho). A priminha está uma simpatia brincando com todo mundo e falando um pouco de cada lingua para agradar a todos! A graciosidade em forma de criança.
Deixamos o primo no escritório e fomos desbravar o primeiro mundo. Fomos a Miami Beach (a casa do Versace sempre me pareceu tão maior nas fotografias), Coconut Grove e ainda conheci a Universidade de Miami e sua biblioteca incrível. Me emocionei (não de chorar, mas de lamentar) ao lembrar de tudo aquilo que a Universidade onde estudei poderia ser e não é (ai de ti, terceiro mundo!). Não conheci a Law School, mas talvez o faça em outro momento. Depois, almoçamos no Tony Roma's (Ramos, segundo meu avô) algo quase viking, passamos no mercado onde um brasileiro me contou do terremoto no Japão e viemos descansar. Acertei no presente para a pequena: As antigas canções de roda brasileiras são irresistíveis para todas as crianças, inclusive as importadas. Salve Galinha Pintadinha, o hit incontestável da viagem.


Sábado 12-03-2011
Hoje acordamos cedo e fomos tomar café no Lighthouse Cafe. Ovos com bacon - quem com porcos anda, farelo come - farelo muito bom, por sinal - a beira da praia . Estava um sol frio, que só ilumina, mas não chega a esquentar. Ideal para tirar fotos históricas, daquelas que ilustrará portas retratos na parede de casa por gerações. Meus avós na praia, a priminha definindo a meiguice com uma florzinha na mão. O farol, imponente como um sentinela gigante - ainda que adormecido. A casa do velho faroleiro remetendo a uma Florida selvagem, e a uma insuportável solidão. Época em que não existia Highways, Miami beach e transatlânticos estacionados no porto. Só o barulho do mar e a preocupação com os malditos índios. Tudo cinematograficamente conservado como um souvenir em tamanho real. Realmente lindo.
Dali, zarpamos para Fort Lauderdale. Rainforest Cafe, o restaurante-floresta-tropical, nos esperava com seus gorilas que se mexiam e elefantes que bramiam. Minivan no aeroporto. Estrada em perfeito estado. St Peter arrebentando no weather. Há uma cortina de chuva no bar, um portão de aquário na entrada e, de trinta em trinta minutos a iluminação e a bicharada simulam uma tempestade tropical. É tudo automatizado, claro, mas impressiona bastante. Dá para se sentir criança, sim, mãe. Queria ter tirado uma foto de minha avó com os gorilas, mas todos esquecemos. Vovô ganhou um Volcano - brownies com sorvete - como uma pré comemoração de seus 90 anos, com direito a fanfarra da garçonzada e tudo. De lá, tentamos fingir ser turistas convencionais e partimos para a Apple Store mais próxima (Galleria Mall) para tentar disputar um Ipad2 no dia de seu lançamento, empreitada que, obviamente, restou frustrada: Ipad2 está sold out. Na volta pela praia, o sol se escondia atrás dos prédios. Iluminação e cenários de cinema. Halle Berry numa mesa próxima a de um amigo do primo num restaurante em Miami Beach quase me fez crer que eu estava, sim, em um filme. Uma passada por lá ficou só na fantasia pois a esta altura já estávamos todos exaustos, mas felizes.

Domingo 13-03-2011
Lembranças para o café da manhã. De Miami para Itaperuna, infância e adolescência em alguns segundos, entrecortados por bagels, tostadas e vitamina de bananas. À tarde, churrasco de espanhol, francês e inglês. Assim foi até pouco depois do Fla-Flu 0x0 em Key Biscayne. Via internet.

Segunda 14-03-2011
Compras, compras e muitas compras. Nosso dia de turistas convencionais maratoneando pelos shoppings de Miami. Dadeland e The falls, sendo o Milk Shake de chocolate do The Rocket altamente recomendável. Sem mencionar sua decoração sooo 50's com trilha sonora de igual calibre. A lenda do Ipad2 disputa com a Galinha Pintadinha o título de hit da viagem.

Terça 15-03-2011
Rodamos Miami procurando o Ipad2. E, ok, passeando também. A estratégia de marketig da Apple é a do desespero falsificado. Explico: Cada loja conta com cerca de 20 vendedores cada. Para a venda do Ipad, são destacados algo como 3 vendedores somente. A cereja do bolo é que cada loja recebe um número limitado de aparelhos por dia. Resultado: Fila, impressão de que as vendas estão batendo recordes e, principalmente, que você vai ser a carta fora do baralho se você não tiver um. Há um certo sinal de discurso ensaiado quando eles dizem que o aparelho está sold out e que, infelizmente, eles não sabem quando chegará mais. Segredo: Invariavelmente no dia seguinte, pela manhã, aparentemente brotam Ipads nas lojas. A sensação de que eles mantém uma quantidade em depósito e só liberam de acordo com a repercussão e a procura, é inevitável. Por fim, paramos na Lincoln Road, Miami Beach. Bombando em plena tarde de terça feira. Almoçamos no italiano Tiramesu, o que é recomendável. Dali, caminhamos um pouco. No meio do burburinho, eis que surge uma igreja comunitária, pálida e deslocada (porém respeitada) como uma noiva virgem numa zona de meretrício. Moças de catálogo passam com a última moda, crianças em carrinho ouvem Ipods, pessoas andam de patins, casais gays passeam com seus filhos. Assim foi a Licoln Road numa tarde fresca e ensolarada. Encerramos na loja da Nespresso. Atração tanto para o paladar como para a visão. O dia encerrou com um por-de-sol alaranjado acariciando Key Biscayne.

Quarta 16-03-2011
Dia da correria. Sou um turista meio às avessas. Óbvio que me interessam os pontos turísticos, as paisagens cinematográficas, as boas compras, mas eu simplesmente adoro vivenciar o dia-a-dia comum do lugar onde visito. Hoje foi o dia das arrumações e logísticas de mudanças. Quantas pessoas que você conhece viajou a outro país e teve que lidar com algo tão prosaico como mudar de casa. Meus familiares daqui (que não são tão daqui assim) moram nas Bahamas e estavam aqui devido ao nascimento do pequenino. Pequenino já com um mês de vida, esbanjando saúde e fofura, passaporte a tira colo (com uma carinha irresistível de what-the-fuck na foto): hora de voltar para casa. E, assim, iremos todos. Ok, que teve o café da manhã no mais que recomendado Ihop (International House of the Pancakes), que realmente vale todas as recomendações, e que teve o peixe frito de almoço perto do farol num cais com um visual de jamais contestar a existência de Deus, mas isso foi nos intervalos, o dia mesmo foi de empacar (empacotar, em espanhol, deduzi) e transportar infindáveis caixas e malas gigantescas. Pode parecer um super programa de índio, mas eu curti. Aprendi que você pode deixar malas no aeroporto de Miami por 2 meses a 8 dólares o dia (no setor apropriado, obviamente), que a ups empacota coisas aparentemente não empacotáveis e como se abastece o carro nos postos self service daqui.

Quinta 17-03-2011
Apple store, Dadeland, 9h da manhã: Fila discreta no interior da loja. Minha tia fica na fila enquanto retorno no carro para buscar o casaco. No caminho, fico me questionando se estou mesmo com frio ou se é TOC (é quase primavera no hemisfério norte, temperaturas amenas - e quase tropicais na Flórida). Não chego a uma conclusão. Quando retorno, minha tia me dá a notícia surreal da temporada: Aparentemente a fila era à toa. Os vendedores (grosseiramente) diziam que estava esgotado, mas os consumidores se recusavam a acreditar. Isso mesmo. Saí dali sem nem querer saber o final da novela e, sim, satisfeito por não ter conseguido um Ipad2. Dali, fui turistar com meus avós no Miami Seaquarium. Fiquei com um misto de ternura e pena dos golfinhos e das baleias adestradas, pensando se eram maltratados. De qualquer forma, viviam num aquário a poucos metros de um mar imensamente azul, o que, sem dúvida, deve significar alguma coisa para eles. Videos da minha avó se divertindo vendo os golfinhos fazendo piruetas e a baleia dando banho nas crianças. Quero guardar estes momentos para sempre.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Breves comentários


Sobre o Oscar ontem: Só dividirei aqui minhas impressões sobre as categorias principais, levando em consideração os (poucos) filmes que vi desta temporada.

Melhor atriz: Natalie Portman
Dificilmente discordarei da Academia quanto a esta escolha, mesmo não tendo assistido o desempenho das concorrentes Annette Benning, Nicole Kidman, Michelle Williams e Jennifer Lawrence. A visceralidade que vi na atuação de Natalie Portman em CISNE NEGRO foi algo tão impressionante que, sem dúvida, por tê-la assistido primeiro e ainda contar com o aval da Academia agora, ficarei bastante imparcial ao conferir as outras.

Melhor ator: Colin Firth
De novo, meus parâmetros são escassos, mas suspeito que igualmente não discordadei da Academia. Vi Jesse Eisenberg (que só me impressiona positivamente desde o -no meu ponto de vista- subestimado A LULA E A BALEIA) interpretar justamente o Mark Zuckerberg que imaginei quando li BILIONÁRIOS POR ACASO, mas nada se compara à sensibilidade cativante que Firth emprestou ao seu rei gago, um tanto inseguro, porém (ao menos na ficção) imensamente íntegro. Há certas nuances em sua interpretação que seria uma tremenda injustiça não premiá-la.

Melhor direção: Tom Hooper
Esta categoria contou com uma das maiores injustiças do Oscar deste ano que foi não contemplar, ao menos com uma indicação, o trabalho de Christopher Nolan em A ORIGEM. Dito isso, ouso dizer que esta premiação seria uma das discordâncias (talvez em parte) que tenho com a Academia. O trabalho de direção de Tom Hooper em O DISCURSO DO REI é, sim, muito bom, mas David Fincher teve um excelente desempenho, também, no seu bom (e só) A REDE SOCIAL. Contudo, o meu Oscar definitivamente iria para Darren Aronofsky por sua arrebatadora inspiração ao filmar o avassalador CISNE NEGRO, nos transportando de maneira contundente para a auto-destrutiva emotional rollercoaster de sua psiquiátrica protagonista.

Melhor filme: O discurso do rei
Dos que assisti desta categoria, classificaria da seguinte forma, em ordem crescente de preferência: A ORIGEM, A REDE SOCIAL, O DICURSO DO REI e CISNE NEGRO. Entretanto, como disse a um amigo, só "aceitaria" que CISNE NEGRO perdesse para O DISCURSO DO REI.

Tentarei, ao máximo, assistir os outros filmes e postar minhas opiniões aqui.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O mundo mágico de Escher

Vale a pena visitar a exposição “O mundo mágico de Escher”, em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro até 17 de março. Se você acha que não conhece Escher, pode ser que você conheça, mas não conheça. E isso não é paradoxal. Veja esta cena de A ORIGEM (Inception, Christopher Nolan, EUA, 2010) - se possível, ignore que ela está em inglês com legendas em francês. Tentei, em vão, achar outra mais adequada.

A Escada de Penrose em questão é um exemplo de espaço impossível (portanto, uma espécie de paradoxo). No filme, a confusão que esta impossibilidade gera é uma arma contra os sonhadores incautos que são assaltados por Don Cobb e sua turma. Repare que a única forma desta figura existir no espaço é a revelada no final desta sequência, ou seja, quebrando a sua continuidade aparente. É uma escada que existe, mas não existe.

Segundo a Wikipédia, a Escada de Penrose foi concebida pelos matemáticos Lionel e Roger Penrose (pai e filho), entretanto, foi imortalizada justamente por M.C. Escher, o artista gráfico homenageado pela referida mostra, na sua gravura Ascending and Descending, que, para reforçar o paradoxo, coloca vários bonequinhos subindo e descendo degraus impossíveis como que eternamente.



O acervo da mostra está riquíssimo, abrangendo um vasto período de sua carreira. Além dos seus famosos espaços impossíveis, Escher era também fascinado pelo que se chamava divisão regular do espaço. Suas gravuras simétricas são tão incrivelmente meticulosas, que impressionam por terem sido feitas à mão e não por um computador de última geração.
Destes modelos, a que mais me impressionou (confesso, mais pela "mensagem" que ela traz sobre Criação e harmonia, do que propriamente pela geometria) foi a que segue, chamada Verbum:



Outra espantosa é esta (High and Low) em que ele brinca com simetria e paradoxo, levando-os a um extremo que é simplesmente fascinante:



Escher dizia (vale a pena ver o filme de 1 hora de duração, sobre sua história e sua obra, que é exibido repetida e ininterruptamente na exposição) que o que o fascinava em seu trabalho era a sensação de prazer estético que a harmonia daquelas formas simétricas lhe causavam. Ele não era matemático de formação, mas obviamente era um profundo conhecedor da mesma, uma vez que, como fica claro em muitos de seus rascunhos e anotações espalhados pela mostra, isto era necessário para que chegasse ao resultado desejado, que, segundo ele, sempre estava aquém do imaginado. Aprazia-lhe também a sensação de continuidade, de eternidade, que essas figuras traziam, chegando a afirmar em carta a um amigo que se espantava das pessoas não perceberem que a matemática e a poesia tinham a mesma origem. E é bonito, mas de uma forma melancólica, um momento em que ele diz que preferia a abstração da harmonia matemática que lhe inspirava ao caos do mundo real (reproduzo esta citação de memória, portanto, pode haver algum equívoco, mas a idéia, pelo que lembro, era bem essa).

Mais intrigante ainda é ver esta imagem (reitero, feita à mão):



E perceber que era este o efeito que ele pretendia:



Ok, o pensamento de que ele deveria ser vítima de um baita TOC é inevitável. E, sim, o excesso de preto-e-branco causa certo enfado à retina (até há algumas gravuras coloridas, mas a esmagadora maioria segue o padrão). Entretanto, a genialidade indiscutível do homenageado supera tudo isso.

O Mundo Mágico de Escher
Local: Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro
Data: De 18 de janeiro a 27 de março
Horário: Terça a domingo, das 9h às 21h
Local: Salas A a I e Pátio da Rua Direita – 1º andar | Rua Primeiro de Março, 66 - Centro
Agendamento de visitas monitoradas: Segunda a sexta, das 9h às 18h | Telefones: (21) 3808-2070 e 3808-2254
Recepção/Informações: Terça a domingo, das 9h às 21h | Telefone: (21) 3808-2020
Classificação: Livre
Entrada Franca

PS: Pode-se ver as imagens em um tamanho maior clicando nelas

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sobre o filme "Além da vida"


Tem uma história que circula na internet há algum tempo que narra um episódio bastante curioso sobre, entre outras coisas, uma certa sincronicidade que parece permear alguns momentos de nossas vidas. Ela seria verídica e teria sido narrada pelo Rabino Issocher Frand em uma de suas palestras. É a história de Moisés (ou Mochê, em algumas versões), um bem sucedido empresário judeu, que, em uma viagem de negócios a Israel, decidiu, entre uma reunião e outra, fazer um lanche rápido numa pizzaria da cidade. Lá chegando, encontrando-a um tanto mais cheia do que de costume, demonstrou certa angústia, tendo em vista o seu horário apertado, o que teria sido percebido por um dos senhores que estava na fila para comprar. O senhor, então, após ouvir Moisés narrar a sua urgência, oferece ao mesmo o seu lugar na fila, de forma que dentro de alguns instantes, Moisés já estava livre para sua reunião. Entretanto, após uns breves minutos de caminhada, Moisés ouve um ensurdecedor estrondo, e percebe estupefato, que a pizzaria de onde saíra havia pouco por generosidade de um desconhecido tinha ido pelos ares em virtude de um ataque terrorista. Sem pensar duas vezes, Moisés imediatamente se dirige de volta ao lugar do desastre a fim de tentar socorrer aquele que, com um gesto simples de gentileza, havia, involuntariamente, lhe salvado a vida. Após muito procurar, Moisés encontra o seu bemfeitor vivo em um dos hospitais da cidade, um tanto ferido, mas sem risco de vida. Em conversa com seu filho, como forma de gratidão, deixa seus contatos nos EUA, onde vivia, para que entrassem em contato, caso o pai precisasse de alguma coisa. Cerca de um mês depois, Moisés recebe uma ligação do filho de seu benfeitor, informando que o pai necessitava de uma delicada intervenção cirúrgica que era melhor realizada em um hospital em Boston e que eles não poderiam arcar com todas as despesas. Moisés, então, não mede esforços para retribuir ao generoso senhor a bênção que recebera cerca de um mês antes e financia a vinda do mesmo bem como a sua cirurgia em Boston. Não satisfeito, decide acompanhar pessoalmente o procedimento, viajando, naquela manhã de terça feira, de Nova Iorque para Boston. Por este motivo, Moisés não estava trabalhando em seu escritório no 101º andar do World Trade Center, naquela manhã fatídica de 11 de setembro de 2001.
Lembrei dessa história vendo ALÉM DA VIDA. Não que o filme a reproduza ou traga alguma lição sobre as vantagens metafísicas da gratidão e do altruísmo. Absolutamente não. É um filme sobre este fenômeno tão misterioso quanto aterrador, que é a morte. Contudo, não é um filme mórbido ou assustador, mas certamente um que lança sobre a iniludível um olhar delicado e sábio próprio de um senhor de quase 81 anos, como o de seu diretor, Clint Eastwood, que certamente deve se relacionar com a mesma de maneira muito mais presente do que este que vos tecla.
O filme narra a história de três personagens que, de alguma maneira, se relacionaram com a morte de forma significativa. Marie (interpretada pela não menos que belíssima Cécile De France), uma renomada jornalista francesa que após uma experiência de quase-morte no tsunami na Ásia experiencia um novo paradigma de vida. Marcus, menino introvertido e inseguro, cujo irmão gêmeo, mais extrovertido e confiante, morre inesperadamente. E George (Matt Damon, competentíssimo como sempre), médium que, após uma carreira extenuante como vidente, nada mais deseja do que uma vida normal. E esta relação de cada um deles é bastante arquetípica quanto a maneira, em geral, com que as pessoas lidam com a morte.
Marie simboliza o materialista mais ligado às coisas do dia-a-dia que passou por uma experiência místico-espiritual e encontra resistência na sua vida social à nova concepção de vida que passou a experimentar. Marcus é a criança que surge em cada um de nós quando perdemos alguém que amamos e confiamos sendo bastante simbólica a sua busca por se comunicar com o irmão falecido, esbarrando inevitavelmente com inúmeros charlatães, como é bastante comum entre aqueles que não se conformam com o ocorrido. Ao mesmo tempo, a ingenuidade de Marcus serve ainda como um interessante mecanismo de controle de veracidade das comunicações uma vez que ele não tem qualquer preconceito quanto as diversas correntes espiritualistas que busca, estando livre de qualquer modelo pré-concebido do que seja a realidade da vida após a morte, o que, por conseqüência, o deixa livre para avaliar a qualidade das comunicações que recebe sem se deixar levar pela auto-sugestão. E finalmente, George, um médium genuíno que tem dificuldades de conciliar suas faculdades anímicas com a rotina do homem comum que gostaria de ser, uma vez que, ao que parece, as pessoas que o cercam somente parecem dispostas ou a o idolatrarem, ou a o temerem ou a tentarem se aproveitar dele. É interessante a opção por mostrar justamente o período em que o personagem experimenta uma espécie de “aposentadoria voltuntária”, em que está mais reflexivo quanto ao dom que possui, considerando-o uma maldição, o que certamente potencializará uma eventual catarse futura.
Toda a narrativa é construída sem pressa, com bastante sensibilidade e delicadeza, apresentando aos poucos os personagens e suas histórias. Merecendo destaque a sequência inicial do Tsunami (não tanto pelos efeitos especiais que, creio, poderiam ser um pouco mais realistas – penso haver enxergado algumas pessoas transparentes fugindo da onda) que consegue criar um clima de tensão justamente por demorar-se na ambientação da locação paradisíaca e tranqüila onde aquela tragédia apocalíptica, quase absurda, aconteceu. Vamos assistindo Marie desfilar por aquelas ruas tranqüilas e bucólicas extremamente penalizados por sabermos o que acontecerá dentro em pouco e não é à toa que também neste momento se crie uma identificação com uma criança, uma vez que nada nos soa mais anti-natural e injusto do que uma tragédia dessas vitimar um ser tão puro e inocente. Eastwood desfila ainda a sua elegância ao elevar a câmera para o céu imediatamente após a morte da outra criança, cortando para um avião em pleno vôo como a remeter à lúdica noção de que os que morrem “vão para o céu” - como invariavelmente é explicado o fenômeno da morte aos pequenos, que em sua pouca capacidade de abstração não raro crêem que tal viagem se faz de avião. Sem mencionar que no citado vôo estão outros personagens, ou seja, o encadeamento e o corte servem organicamente às duas narrativas.
Envolvendo cada uma dessas histórias há uma sutil sincronicidade que me lembrou a história contada pelo rabino. Mesmo estando cada personagem em um país diferente (Marie na França, Marcus na Inlgaterra e George nos EUA) desde o início vamos aguardando o momento em que eles se encontrarão e, obviamente (e isso não é nenhum spoiler), que isso acontece em um dado momento do filme graças a algumas pequenas coincidências, muito embora, é certo, coincidências não tão contundentes (mas não menos importante) quanto a da história de Moisés. Um pouco do arco dramático de cada personagem depende deste encontro e, no final, após toda demonstração de talento do Sr. Eastwood para contar uma bela história, não faz tanta diferença assim que isso se dê nos poucos minutos finais da projeção. Já estamos absolutamente seduzidos por aqueles personagens e, sim, amadurecemos um pouco com a trajetória de cada um deles.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Se

Aos que ainda não viram, fica a sugestão como reflexão para este ano que está começando.


SE

Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia...

Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas...

Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser...

Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo...
Se algum ressentimento,

Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,

E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou...

Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio...

Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu...

Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia...

Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende...

Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim...

Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito...

Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz...


Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou...

Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.

Hermógenes


paz.