segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Breves comentários


Sobre o Oscar ontem: Só dividirei aqui minhas impressões sobre as categorias principais, levando em consideração os (poucos) filmes que vi desta temporada.

Melhor atriz: Natalie Portman
Dificilmente discordarei da Academia quanto a esta escolha, mesmo não tendo assistido o desempenho das concorrentes Annette Benning, Nicole Kidman, Michelle Williams e Jennifer Lawrence. A visceralidade que vi na atuação de Natalie Portman em CISNE NEGRO foi algo tão impressionante que, sem dúvida, por tê-la assistido primeiro e ainda contar com o aval da Academia agora, ficarei bastante imparcial ao conferir as outras.

Melhor ator: Colin Firth
De novo, meus parâmetros são escassos, mas suspeito que igualmente não discordadei da Academia. Vi Jesse Eisenberg (que só me impressiona positivamente desde o -no meu ponto de vista- subestimado A LULA E A BALEIA) interpretar justamente o Mark Zuckerberg que imaginei quando li BILIONÁRIOS POR ACASO, mas nada se compara à sensibilidade cativante que Firth emprestou ao seu rei gago, um tanto inseguro, porém (ao menos na ficção) imensamente íntegro. Há certas nuances em sua interpretação que seria uma tremenda injustiça não premiá-la.

Melhor direção: Tom Hooper
Esta categoria contou com uma das maiores injustiças do Oscar deste ano que foi não contemplar, ao menos com uma indicação, o trabalho de Christopher Nolan em A ORIGEM. Dito isso, ouso dizer que esta premiação seria uma das discordâncias (talvez em parte) que tenho com a Academia. O trabalho de direção de Tom Hooper em O DISCURSO DO REI é, sim, muito bom, mas David Fincher teve um excelente desempenho, também, no seu bom (e só) A REDE SOCIAL. Contudo, o meu Oscar definitivamente iria para Darren Aronofsky por sua arrebatadora inspiração ao filmar o avassalador CISNE NEGRO, nos transportando de maneira contundente para a auto-destrutiva emotional rollercoaster de sua psiquiátrica protagonista.

Melhor filme: O discurso do rei
Dos que assisti desta categoria, classificaria da seguinte forma, em ordem crescente de preferência: A ORIGEM, A REDE SOCIAL, O DICURSO DO REI e CISNE NEGRO. Entretanto, como disse a um amigo, só "aceitaria" que CISNE NEGRO perdesse para O DISCURSO DO REI.

Tentarei, ao máximo, assistir os outros filmes e postar minhas opiniões aqui.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O mundo mágico de Escher

Vale a pena visitar a exposição “O mundo mágico de Escher”, em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro até 17 de março. Se você acha que não conhece Escher, pode ser que você conheça, mas não conheça. E isso não é paradoxal. Veja esta cena de A ORIGEM (Inception, Christopher Nolan, EUA, 2010) - se possível, ignore que ela está em inglês com legendas em francês. Tentei, em vão, achar outra mais adequada.

A Escada de Penrose em questão é um exemplo de espaço impossível (portanto, uma espécie de paradoxo). No filme, a confusão que esta impossibilidade gera é uma arma contra os sonhadores incautos que são assaltados por Don Cobb e sua turma. Repare que a única forma desta figura existir no espaço é a revelada no final desta sequência, ou seja, quebrando a sua continuidade aparente. É uma escada que existe, mas não existe.

Segundo a Wikipédia, a Escada de Penrose foi concebida pelos matemáticos Lionel e Roger Penrose (pai e filho), entretanto, foi imortalizada justamente por M.C. Escher, o artista gráfico homenageado pela referida mostra, na sua gravura Ascending and Descending, que, para reforçar o paradoxo, coloca vários bonequinhos subindo e descendo degraus impossíveis como que eternamente.



O acervo da mostra está riquíssimo, abrangendo um vasto período de sua carreira. Além dos seus famosos espaços impossíveis, Escher era também fascinado pelo que se chamava divisão regular do espaço. Suas gravuras simétricas são tão incrivelmente meticulosas, que impressionam por terem sido feitas à mão e não por um computador de última geração.
Destes modelos, a que mais me impressionou (confesso, mais pela "mensagem" que ela traz sobre Criação e harmonia, do que propriamente pela geometria) foi a que segue, chamada Verbum:



Outra espantosa é esta (High and Low) em que ele brinca com simetria e paradoxo, levando-os a um extremo que é simplesmente fascinante:



Escher dizia (vale a pena ver o filme de 1 hora de duração, sobre sua história e sua obra, que é exibido repetida e ininterruptamente na exposição) que o que o fascinava em seu trabalho era a sensação de prazer estético que a harmonia daquelas formas simétricas lhe causavam. Ele não era matemático de formação, mas obviamente era um profundo conhecedor da mesma, uma vez que, como fica claro em muitos de seus rascunhos e anotações espalhados pela mostra, isto era necessário para que chegasse ao resultado desejado, que, segundo ele, sempre estava aquém do imaginado. Aprazia-lhe também a sensação de continuidade, de eternidade, que essas figuras traziam, chegando a afirmar em carta a um amigo que se espantava das pessoas não perceberem que a matemática e a poesia tinham a mesma origem. E é bonito, mas de uma forma melancólica, um momento em que ele diz que preferia a abstração da harmonia matemática que lhe inspirava ao caos do mundo real (reproduzo esta citação de memória, portanto, pode haver algum equívoco, mas a idéia, pelo que lembro, era bem essa).

Mais intrigante ainda é ver esta imagem (reitero, feita à mão):



E perceber que era este o efeito que ele pretendia:



Ok, o pensamento de que ele deveria ser vítima de um baita TOC é inevitável. E, sim, o excesso de preto-e-branco causa certo enfado à retina (até há algumas gravuras coloridas, mas a esmagadora maioria segue o padrão). Entretanto, a genialidade indiscutível do homenageado supera tudo isso.

O Mundo Mágico de Escher
Local: Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro
Data: De 18 de janeiro a 27 de março
Horário: Terça a domingo, das 9h às 21h
Local: Salas A a I e Pátio da Rua Direita – 1º andar | Rua Primeiro de Março, 66 - Centro
Agendamento de visitas monitoradas: Segunda a sexta, das 9h às 18h | Telefones: (21) 3808-2070 e 3808-2254
Recepção/Informações: Terça a domingo, das 9h às 21h | Telefone: (21) 3808-2020
Classificação: Livre
Entrada Franca

PS: Pode-se ver as imagens em um tamanho maior clicando nelas

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sobre o filme "Além da vida"


Tem uma história que circula na internet há algum tempo que narra um episódio bastante curioso sobre, entre outras coisas, uma certa sincronicidade que parece permear alguns momentos de nossas vidas. Ela seria verídica e teria sido narrada pelo Rabino Issocher Frand em uma de suas palestras. É a história de Moisés (ou Mochê, em algumas versões), um bem sucedido empresário judeu, que, em uma viagem de negócios a Israel, decidiu, entre uma reunião e outra, fazer um lanche rápido numa pizzaria da cidade. Lá chegando, encontrando-a um tanto mais cheia do que de costume, demonstrou certa angústia, tendo em vista o seu horário apertado, o que teria sido percebido por um dos senhores que estava na fila para comprar. O senhor, então, após ouvir Moisés narrar a sua urgência, oferece ao mesmo o seu lugar na fila, de forma que dentro de alguns instantes, Moisés já estava livre para sua reunião. Entretanto, após uns breves minutos de caminhada, Moisés ouve um ensurdecedor estrondo, e percebe estupefato, que a pizzaria de onde saíra havia pouco por generosidade de um desconhecido tinha ido pelos ares em virtude de um ataque terrorista. Sem pensar duas vezes, Moisés imediatamente se dirige de volta ao lugar do desastre a fim de tentar socorrer aquele que, com um gesto simples de gentileza, havia, involuntariamente, lhe salvado a vida. Após muito procurar, Moisés encontra o seu bemfeitor vivo em um dos hospitais da cidade, um tanto ferido, mas sem risco de vida. Em conversa com seu filho, como forma de gratidão, deixa seus contatos nos EUA, onde vivia, para que entrassem em contato, caso o pai precisasse de alguma coisa. Cerca de um mês depois, Moisés recebe uma ligação do filho de seu benfeitor, informando que o pai necessitava de uma delicada intervenção cirúrgica que era melhor realizada em um hospital em Boston e que eles não poderiam arcar com todas as despesas. Moisés, então, não mede esforços para retribuir ao generoso senhor a bênção que recebera cerca de um mês antes e financia a vinda do mesmo bem como a sua cirurgia em Boston. Não satisfeito, decide acompanhar pessoalmente o procedimento, viajando, naquela manhã de terça feira, de Nova Iorque para Boston. Por este motivo, Moisés não estava trabalhando em seu escritório no 101º andar do World Trade Center, naquela manhã fatídica de 11 de setembro de 2001.
Lembrei dessa história vendo ALÉM DA VIDA. Não que o filme a reproduza ou traga alguma lição sobre as vantagens metafísicas da gratidão e do altruísmo. Absolutamente não. É um filme sobre este fenômeno tão misterioso quanto aterrador, que é a morte. Contudo, não é um filme mórbido ou assustador, mas certamente um que lança sobre a iniludível um olhar delicado e sábio próprio de um senhor de quase 81 anos, como o de seu diretor, Clint Eastwood, que certamente deve se relacionar com a mesma de maneira muito mais presente do que este que vos tecla.
O filme narra a história de três personagens que, de alguma maneira, se relacionaram com a morte de forma significativa. Marie (interpretada pela não menos que belíssima Cécile De France), uma renomada jornalista francesa que após uma experiência de quase-morte no tsunami na Ásia experiencia um novo paradigma de vida. Marcus, menino introvertido e inseguro, cujo irmão gêmeo, mais extrovertido e confiante, morre inesperadamente. E George (Matt Damon, competentíssimo como sempre), médium que, após uma carreira extenuante como vidente, nada mais deseja do que uma vida normal. E esta relação de cada um deles é bastante arquetípica quanto a maneira, em geral, com que as pessoas lidam com a morte.
Marie simboliza o materialista mais ligado às coisas do dia-a-dia que passou por uma experiência místico-espiritual e encontra resistência na sua vida social à nova concepção de vida que passou a experimentar. Marcus é a criança que surge em cada um de nós quando perdemos alguém que amamos e confiamos sendo bastante simbólica a sua busca por se comunicar com o irmão falecido, esbarrando inevitavelmente com inúmeros charlatães, como é bastante comum entre aqueles que não se conformam com o ocorrido. Ao mesmo tempo, a ingenuidade de Marcus serve ainda como um interessante mecanismo de controle de veracidade das comunicações uma vez que ele não tem qualquer preconceito quanto as diversas correntes espiritualistas que busca, estando livre de qualquer modelo pré-concebido do que seja a realidade da vida após a morte, o que, por conseqüência, o deixa livre para avaliar a qualidade das comunicações que recebe sem se deixar levar pela auto-sugestão. E finalmente, George, um médium genuíno que tem dificuldades de conciliar suas faculdades anímicas com a rotina do homem comum que gostaria de ser, uma vez que, ao que parece, as pessoas que o cercam somente parecem dispostas ou a o idolatrarem, ou a o temerem ou a tentarem se aproveitar dele. É interessante a opção por mostrar justamente o período em que o personagem experimenta uma espécie de “aposentadoria voltuntária”, em que está mais reflexivo quanto ao dom que possui, considerando-o uma maldição, o que certamente potencializará uma eventual catarse futura.
Toda a narrativa é construída sem pressa, com bastante sensibilidade e delicadeza, apresentando aos poucos os personagens e suas histórias. Merecendo destaque a sequência inicial do Tsunami (não tanto pelos efeitos especiais que, creio, poderiam ser um pouco mais realistas – penso haver enxergado algumas pessoas transparentes fugindo da onda) que consegue criar um clima de tensão justamente por demorar-se na ambientação da locação paradisíaca e tranqüila onde aquela tragédia apocalíptica, quase absurda, aconteceu. Vamos assistindo Marie desfilar por aquelas ruas tranqüilas e bucólicas extremamente penalizados por sabermos o que acontecerá dentro em pouco e não é à toa que também neste momento se crie uma identificação com uma criança, uma vez que nada nos soa mais anti-natural e injusto do que uma tragédia dessas vitimar um ser tão puro e inocente. Eastwood desfila ainda a sua elegância ao elevar a câmera para o céu imediatamente após a morte da outra criança, cortando para um avião em pleno vôo como a remeter à lúdica noção de que os que morrem “vão para o céu” - como invariavelmente é explicado o fenômeno da morte aos pequenos, que em sua pouca capacidade de abstração não raro crêem que tal viagem se faz de avião. Sem mencionar que no citado vôo estão outros personagens, ou seja, o encadeamento e o corte servem organicamente às duas narrativas.
Envolvendo cada uma dessas histórias há uma sutil sincronicidade que me lembrou a história contada pelo rabino. Mesmo estando cada personagem em um país diferente (Marie na França, Marcus na Inlgaterra e George nos EUA) desde o início vamos aguardando o momento em que eles se encontrarão e, obviamente (e isso não é nenhum spoiler), que isso acontece em um dado momento do filme graças a algumas pequenas coincidências, muito embora, é certo, coincidências não tão contundentes (mas não menos importante) quanto a da história de Moisés. Um pouco do arco dramático de cada personagem depende deste encontro e, no final, após toda demonstração de talento do Sr. Eastwood para contar uma bela história, não faz tanta diferença assim que isso se dê nos poucos minutos finais da projeção. Já estamos absolutamente seduzidos por aqueles personagens e, sim, amadurecemos um pouco com a trajetória de cada um deles.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Se

Aos que ainda não viram, fica a sugestão como reflexão para este ano que está começando.


SE

Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia...

Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas...

Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser...

Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo...
Se algum ressentimento,

Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,

E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou...

Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio...

Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu...

Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia...

Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende...

Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim...

Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito...

Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz...


Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou...

Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.

Hermógenes


paz.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz natal

Yeshua ben Youssef, segundo estudos, nasceu provavelmente em um mês de Agosto entre os anos 6 e 7 antes da era Cristã. O dia 25 de dezembro como natalício de Jesus surgiu por decreto do Papa Julio I, no ano 350, em substituição às festividades pagãs ligadas ao solstício de inverno e a adoração ao deus-sol.
Sabe-se lá de quantas formas diferentes o natal foi comemorado estes anos todos pelas mais diversas culturas cristãs. O que se sabe é que hoje, na maioria dos casos, ele está na mesma semântica que peru de natal, Papai Noel e árvore de natal. Provavelmente cada um destes costumes tem um simbolismo próprio que, confesso (provavelmente fazendo coro com a maioria das pessoas), desconheço. Sem mencionar o consumismo ensandecido que transforma qualquer centro comercial em uma sucursal do inferno (ainda mais nesta canícula superlativa de Rio de Janeiro).
Todo este contexto me leva à mesma reflexão que fiz no post sobre o carnaval (fina ironia). Cada vez mais fico convencido que todo mundo comemora o natal porque todo mundo comemora o natal.
***
Uma imagem forte, para mim, é a do presépio. Formulada por Francisco de Assis, ela mostra aquele que nós cristãos reputamos ser o maior avatar que este mundo já viu rodeado por sua família, pelos três reis magos e pelos animais da estrebaria que os abrigava. O Senhor da Vida no seu Império, que é o da simplicidade, cercado por tudo aquilo que realmente tem mais valor: família, amigos e natureza. Contudo, é uma imagem já bastante em desuso, salvo pelos que ainda crêem na mensagem que encerra.
Jesus, para mim, tem relevância pelo seu imensurável contributo no que tange ao despertamento do Homem para as verdades espirituais e é bem certo que a lembrança dele e de sua mensagem não deve ficar restrita a um dia do ano, mas a todos os dias de nossas vidas a fim de que possamos um dia lograr uma consciência tão em comunhão com o Criador como a dele.
Feliz natal a todos!

"Vinde a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração e achareis repouso para vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo." (S. Mateus, 11:28 a 30)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A vida é um pisca pisca.

"A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama. Pisca e anda. Pisca e brinca. Pisca e estuda. Pisca e ama. Pisca e cria filhos. Pisca e geme os reumatismos. Por fim, pisca pela última vez e morre.

– E depois que morre? – perguntou o Visconde.
– Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?"

À hipótese mais querida e certa, o meu carinho e saudade nesses 5 anos sem o aconchego do abraço e o sorriso contagiante.
Te amo, meu pai.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Bilionários por acaso


Acabei de ler BILIONÁRIOS POR ACASO – A CRIAÇÃO DO FACEBOOK, uma história de sexo, dinheiro, genialidade e traição, de Ben Mezrich - livro que inspirou o filme A REDE SOCIAL, de David Fincher, que estréia hoje.
Fui atraído pela história justamente após assistir o magnífico trailer do filme. Conheço muito pouco do Facebook e de sua história pois, como todo bom brasileiro, o meu site de relacionamento original foi o bom e velho Orkut e ultimamente meu interesse pela vida virtual tem se restringido ao Twitter e a este espaço. Acho até bacana a idéia de redes sociais, mas acho que cuidar de todas elas do jeito apropriado demanda um tempo que não gostaria de perder. Talvez seja falta de visão minha, mas prefiro acreditar que seja uma questão de prioridade. Desta forma, sabia muito pouco sobre o Facebook e muito menos sobre a história de sua criação. Não é novidade que sexo, dinheiro, genialidade e traição estejam geralmente ligadas a criações de empreendimentos do porte do Facebook, ainda mais quando os responsáveis são universitários ambiciosos vindos de Harvard que descobrem uma mina de ouro meio que “por acaso”. Além deste contexto clichê (porém sempre irresistível), lendo o livro, fica óbvio perceber que a sua adaptação cinematográfica era uma questão de tempo, não só por isso, mas principalmente por dois motivos: a habilidade narrativa de Mezrich e um “personagem” tão excêntrico quanto enigmático (e não menos polêmico) como Mark Zuckerberg, o gênio nerd de 26 anos, dono e “inventor” do Facebook.
Mezrich, jornalista, já é veterano em ter obra sua adaptada pro cinema. A primeira foi BRINGING DOWN THE HOUSE que originou o excelente filme QUEBRANDO A BANCA, com Kevin Spacey, sobre um grupo de jovens gênios da matemática que fizeram fortuna contando cartas em Las Vegas. Contudo, BILIONÁRIOS POR ACASO, não é um texto eminentemente jornalístico ou biográfico. A idéia, aqui, parece ser: antes de informar, entreter. E a narração dos fatos ganha uma versão romanceada. Tem até narrador onisciente. Logo no início, Mezrich faz esta advertência ao leitor, informando que fez inúmeras adaptações à história que investigou e que, inclusive, tomou a liberdade de acrescentar e/ou modificar elementos, principalmente quanto a detalhes como a descrição de ambientes. Relata ainda que, em nome de uma maior fluidez, recriou e adaptou diálogos, entretanto respeitando-lhes a essência. E é realmente impressionante a sua capacidade de mesclar ficção (aquilo que imaginou) e realidade (o que realmente aconteceu), claramente tampando os buracos dos fatos não só com boas sacadas de descrições de ambientes como também com os prováveis sentimentos dos personagens, o que realmente dá vida à história, além de nitidamente, em certos momentos, adaptar uma situação ou outra para que a narrativa tenha ritmo e agilidade. É curiosa e esperta a forma com que começa cada capítulo. Sempre jogando o leitor um pouco adiante na história a fim de causar uma certa estranheza e curiosidade iniciais, para, em seguida, retornar e explicar como se chegou até ali, além de encerrá-los sempre com o clássico gancho para o que virá a seguir.
No fim, o que se tem é uma trama de negócios, traição e até certo suspense, com um ar jovem, quase teen, que entretém como se fosse um grande exemplar de ficção do gênero. Talvez uma crítica pertinente seja justamente a de que o livro privilegia o entretenimento em detrimento da informação, o que pode levantar dúvidas sobre a sua credibilidade. Entretanto, com uma história dessas nas mãos, com todos os elementos clássicos de histórias de ficção sobre grandes corporações, creio que eu também não hesitaria em retratá-la como tal.
Em relação a Zuckerberg, Mezrich também informa no início do livro que ele recusou-se a dar depoimentos, o que contribui ainda mais para a aura de mistério que o cerca. Tudo o que sabemos sobre ele é a forma como cada um o percebeu em cada situação ou um juízo de probabilidade do autor de como ele se sentiu neste ou naquele momento. Zuckerberg é inicialmente apresentado como o cara sempre indecifrável, nerd anti-social convicto, econômico nas palavras e aparentemente nos sentimentos e dono de um senso de humor cáustico que acha tudo “interessante”. Por vezes deixava escapar um certo brilho no olhar um tanto indefinível em situações específicas, mas não mais que isso. Definitivamente, seu principal trunfo, que lhe permitiu iniciar seu projeto ambicioso com certo conforto, ainda que de forma eticamente duvidosa, foi justamente a leitura equivocada que as pessoas comumente faziam dele, provavelmente confiando em sua aparência inofensiva e talvez um tanto frágil, quase que subestimando-o (o que fica claro no episódio com os irmãos Winklevoss e o HarvardConnection/ConnectU). Não contavam que ele fosse astuto, conhecesse como poucos os desejos das pessoas quanto aos seus relacionamentos sociais e, mais do que tudo, que ele fosse detentor de uma determinação monumental para levar o seu projeto de revolução virtual adiante. Determinação essa que, ao que tudo indica, arruinou a sua amizade com o economista brasileiro e amigo de Universidade, Eduardo Saverin, colaborador de primeiríssima ordem (com uma importante viabilização financeira) do projeto. Vale lembrar que Saverin foi um dos principais colaboradores de Mezrich em suas pesquisas, o que pode ser um indício dos motivos de Zuckerberg em recusar-se a falar com o jornalista. Pode soar paradoxal que alguém aparentemente com tanta dificuldade em lidar com pessoas seja justamente o idealizador e dono da rede social mais famosa do mundo, entretanto, este é um fator que comprova de maneira ainda mais contundente a sua genialidade. Li uma declaração sua em que ele diz que não fez o Facebook para ser aceito socialmente, mas pelo prazer de criar algo legal. E, pelo que vejo, ele fez, sim, a sua revolução. Mezrich chega a apostar que chegará o dia em que o Facebook desbancará o Google. Quem viver, verá.